Constatações sobre o uso e risco do consumo de narguilé

21/08/2017

Paneumoblog

O uso do narguilé cresceu substancialmente na última década. As investigações sobre o conteúdo de sua fumaça têm demonstrado a presença de várias substâncias tóxicas, contrariando conceitos populares de que seu uso é inócuo.

Na fumaça do narguilé já foram identificadas cerca de 300 substâncias, das quais 82 tóxicas que foram quantificados. Por exemplo, a quantidade do alcatrão pode variar de 802 a 2350 mg/sessão dependendo do protocolo de investigação; os níveis de nicotina variam de 1,04 a 7,75 mg/sessão e quando não se usa água no recipiente esses níveis passam de 2,11 a 9,29 mg/sessão.

A quantidade de monóxido de carbono (CO) encontrada foi de 57,2 a 367 mg/sessão, dependendo principalmente da quantidade de carvão utilizada para a queima do tabaco. Assim, o conteúdo de alcatrão, nicotina e CO é consideravelmente maior na fumaça do narguilé que do cigarro. Sobre os compostos carbonílicos sabe-se que quanto maior a temperatura alcançada no tabaco maior a quantidade desses compostos e que, em geral, na fumaça do narguilé a maior concentração é de aldeídos, seguido por formaldeído e acetona.

Os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos também estão presentes e são originados na sua maioria a partir da queima do carvão, dentre os quais o benzopireno, potente carcinogênico, merece destaque.

Devemos relatar ainda a presença de nitrosaminas específicas do tabaco (metilnitrosamina), aminas aromáticas primárias (anilina, naftalina), compostos orgânicos voláteis (tolueno, benzeno, acrilonitrila, butadieno) e os compostos fenólicos (catecol, hidroquinona).

Metais pesados como Co, Cr, Ni, Cd e Pb, estão em concentrações maiores quando comparados com fumaça de cigarro. Há ainda presença de 142 substâncias orgânicas como propilenoglicol e glicerol.

Estudos confirmam presença de atividade biológica pela fumaça do narguilé causando efeitos deletérios sobre a função celular no epitélio pulmonar e endotélio vascular. Dessa forma a fumaça é fator que contribui para a patogênese de DPOC e doença vascular, comprometendo o crescimento e reparação celular, além de induzir inflamação, estresse oxidativo e envelhecimento celular precoce.

Em geral há evidência de que fumar narguilé resulta em significativa exposição a CO, hidrocarbonetos aromáticos, nicotina e alcatrão, bem como outras substâncias, em quantidades maiores que os fumantes de cigarros. É também evidente que os usuários de narguilé, bem como os usuários passivos, inalam e absorvem quantidades significativas de químicos tóxicos semelhantes aos encontrados na fumaça do cigarro que são conhecidos como causadores de doença pulmonar, lesão vascular, câncer e dependência.

A exposição aguda da fumaça sobre o sistema cardiovascular pode causar aumento significativo da frequência cardíaca e da pressão arterial, bem como diminuição no índice de variabilidade cardíaca. A exposição de forma crônica pode aumentar em duas vezes o risco de morte por doença isquêmica e três vezes mais estenose coronariana.

Sobre o aparelho respiratório a exposição pode levar a aumento de 25-40% de CO na hemoglobina e redução no consumo de O2. Assim, de forma aguda, pode haver redução da função pulmonar, diminuição da capacidade de exercício e redução no consumo de O2 no nível molecular e fisiológico. O uso do narguilé cronicamente diminui significativamente os níveis de oxi-hemoglobina e redução nas provas de função pulmonar, podendo haver desenvolvimento de DPOC mesmo quando ajustado para idade e uso de cigarro.

Embora existam poucos estudos da associação de câncer com a fumaça do narguilé, sabe-se que essa produz alterações celulares que podem se transformar em alto risco para o desenvolvimento de câncer. Há sugestão de associação do uso crônico de narguilé com câncer esofágico e gástrico, além da transmissão de infecção pelo compartilhamento dos acessórios. Sobre o câncer pulmonar é difícil concluir sobre a associação devido ao uso concomitante com cigarros e exposição a outras toxinas.

Por outro lado, o uso de narguilé durante a gestação aumenta em 2,5 vezes o risco de nascimento de bebês com baixo peso. A saúde periodontal também pode ficar comprometida com aumento do índice placa/gengival e aumento nos índices de lesões orais suspeitas de câncer.

Em conclusão, podemos dizer que há aumento do uso do narguilé nas regiões ocidentais com aumento do uso por jovens, que muitas vezes são induzidos por normas sociais que incluem influência familiar, ignorância generalizada e aceitação social. Isto requer resposta apropriada das autoridades pertinentes sobre a promoção da saúde com normatizações legais específicas sobre o uso do narguilé.

Dr. Carlos Alberto de Assis Viegas, pneumologista, professor aposentado da UNB, membro da Comissão de Tabagismo da SBPT.

Referências sugeridas para leitura complementar:

1) Shihadeh A, Schubert J, Klaiany J, El Sabban M, Luch A, Saliba N. Toxicant contents, physical properties and biological activity of waterpipe tobacco smoke and its tobacco-free alternatives. Tob Control 2015;24:i22-i30.

2) Ali M, Jawad M. Health effects of waterpipe tobacco use: getting the public health message just right. Tob Use Insights 2017;10:1179173×17696055.

Paneumoblog - 21/08/2017

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