Cientistas belgas defendem contato com a poeira para evitar a asma

04/09/2015

Correio Braziliense

Segundo eles, a exposição precoce ao pó doméstico condiciona o sistema imunológico de crianças a reagirem de forma mais equilibrada aos causadores de alergias.

A intenção é das melhores: evitar que agentes externos invadam o organismo. Mas, na tentativa de fechar o corpo para partículas de poeira, pelos de animais e esporos de fungos, por exemplo, o sistema imunológico pode superestimar o inimigo e desencadear os sintomas que caracterizam uma crise asmática. Em crianças, as inflamações costumam ser mais graves e constantes, pois a imunidade ainda está em construção. Mas expô-las a agentes alérgenos antes que a doença se instale pode protegê-las de futuras inflamações dos brônquios, sustenta um artigo publicado na edição desta semana da revista Science.

A lógica é a mesma de muitos pais que deixam os filhos andarem descalços e botarem a mão suja na boca, na expectativa de que criem defesas naturais. A chamada “hipótese da higiene”, proposta em 1989 por um epidemiologista inglês, conduziu o trabalho dos pesquisadores da Universidade de Ghent, na Bélgica. Em um estudo com modelos animais, e replicado em pacientes humanos, eles demonstraram que o contato precoce com pó de terra e poeira doméstica ensina o sistema imunológico a não exagerar nas reações, controlando a resposta inflamatória pulmonar.

“A asma e as alergias são algo tipicamente dos últimos 50 anos. Elas aumentaram muito devido à erradicação bem-sucedida no mundo ocidental de uma série de doenças infecciosas, como a tuberculose e a malária”, defende o pneumologista e especialista em asma Bart Lambrecht, do Instituto de Biotecnologia Flanders, da Universidade de Ghent. “Graças a antibióticos, vacinas e melhores práticas de higiene, conseguimos controlar essas enfermidades. Mas há um outro lado da moeda. A extrema obsessão com limpeza dos povos ocidentais acabou levando a um aumento de alergia e asma em crianças. Isso é prejudicial para o desenvolvimento do sistema imunitário”, observa Lambrecht, que liderou a pesquisa.

O especialista afirma que, nos últimos anos, ao menos 20 estudos europeus constataram que crianças que vivem em fazendas têm incidência mais baixa de alergia e asma. A suspeita dos autores desses trabalhos é de que elas estariam protegidas porque o ar que respiram está cheio de partículas de uma bactéria encontrada no esterco e na forragem. A chamada endotoxina, presentes na parede celular da bactéria gram-negativa, causaria temporariamente um processo inflamatório suave, condicionando a resposta imunológica aos alergênicos. Lambrecht explica que, da mesma forma, os pequenos que moram em áreas urbanas e têm contato, desde cedo, com animais e poeira doméstica são menos propensos a desenvolverem alergias respiratórias.

Sem consenso
A professora de pediatria da Universidade Católica de Brasília (UCB) e médica da Secretaria de Saúde do DF Alessandra Ribeiro Ventura Oliveira lembra que não há conformidade entre especialistas a respeito da questão da exposição precoce aos alergênicos. No Brasil, as sociedades médicas não têm consenso sobre o tema, mas falam sobre imunologia — o documento mais recente são as diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia para o Manejo da Asma de 2012. “A imunologia é, justamente, utilizar os anticorpos com o objetivo de diminuir a resposta inflamatória. Se eu me expuser em pequenas doses, vou conseguir uma resposta que não vai me prejudicar”, explica a pediatra.

De acordo com a professora da UCB, o segredo é a quantidade de alergênicos. “A exposição precoce a pequenas dosagens vai facilitar a melhor resposta inflamatória. Mas, se for uma quantidade alta, a resposta será pior”, alerta. A médica também destaca que isso só vale para alergias respiratórias. No caso das alimentares, a recomendação é manter as crianças longe das iguarias às quais são alérgicas, principalmente as mais novinhas. “Quanto menor a idade, maior é a manifestação”, observa Alessandra.

Testes
Para verificar o que poderia estar por trás da proteção oferecida pelas endotoxinas, os pesquisadores da Universidade de Ghent desenvolveram um estudo, feito primeiramente com ratos. Eles injetaram moléculas da substância presente na bactéria gram-negativa no nariz de cobaias com seis a 12 semanas de vida todos os dias, ao longo de duas semanas. Nesses animais, as células que recobrem os pulmões produziram níveis mais baixos de citocinas — moléculas que desencadeiam o processo inflamatório — quando, posteriormente, elas entraram em contato com poeira repleta de ácaros. Também havia menos células dendríticas no organismo dos roedores. Essas estruturas fazem parte do sistema imunológico e desempenham um importante papel na resposta alérgica.

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