Anticorpos da vacina da gripe suína atacam vírus H1N1 e receptor do sono

02/07/2015

Correio Braziliense

O achado reforça a teoria de que a narcolepsia é uma doença autoimune.
O surto de gripe suína (H1N1) que atingiu a Europa em 2009 só foi contido quando duas vacinas chegaram ao mercado: a Pandemrix e a Focetria. Ainda que eficiente em frear a epidemia, a primeira provocou um efeito preocupante. Mais de 1,3 mil pessoas imunizadas com ela desenvolveram narcolepsia, uma doença incurável e debilitante que provoca sonolência desproporcional durante o dia. A GlaxoSmith-Kline (GSK), empresa que desenvolveu a Pandemrix, reconheceu a correlação, mas não sabe explicá-la. Um artigo publicado hoje na revista Science Translational Medicine oferece uma razão plausível: a imunização produz anticorpos que não atuam apenas contra o vírus H1N1. Também atacam um receptor no cérebro responsável pela regulação do sono. O achado reforça a teoria de que a narcolepsia é uma doença autoimune.

Assim que souberam do aumento dos casos de narcolepsia, o neurocientista Lawrence Steinman, da Universidade de Stanford (EUA), e o reumatologista Sohail Ahmed, na época chefe global de ciências clínicas em vacinas da Novartis, fabricante da Focetria, deram início às pesquisas sobre proteínas expressas no cérebro que poderiam ser semalhantes às presentes na vacina do H1N1. Encontraram um suspeito: um fragmento do vírus cuja estrutura imita parcialmente uma porção de um receptor humano da hipocretina, neurotransmissor responsável por regular os ciclos de sono e vigília.

Esse fragmento é removido do vírus e serve como base para a vacina. O contato dele com o organismo por meio da imunização “treina” os anticorpos contra uma possível infecção natural pelo H1N1, ou seja, aquela com o vírus na sua forma completa. Porém, durante esse “adestramento”, o sistema imunológico se confunde. Passa a atacar tudo que lembre a estrutura do H1N1. Nesse caso, o receptor de hipocretina. Ou seja, há uma resposta autoimune em pessoas predispostas à narcolepsia.

Os anticorpos confusos podem persistir no sangue durante meses, especulam os autores. É possível que essas células de defesa consigam alterar a barreira que separa sangue e cérebro, permitindo uma atuação no sistema nervoso. Assim, ligam-se aos receptores de hipocretina, destruindo ou suprimindo as estruturas essencias para a regulação do sono. Análises em 20 indivíduos que desenvolveram narcolepsia após receber a Pandemrix confirmaram a teoria. Deles, 17 apresentaram quantidades elevadas de anticorpos contra o receptor da hipocretina.

Embora a Focetria também seja construída a partir da mesma proteína, difere em quantidade, que é 72% menor. No experimento, nenhuma das seis pessoas imunizadas com essa vacina apresentaram os mesmos anticorpos. O fenômeno não se restrige apenas à imunização. Há indícios de que o vírus da gripe por si — tanto o H1N1 quanto outras cepas da influenza — também desencadeie a resposta autoimune. Na China, por exemplo, onde a Pandenrix não foi utilizada, houve acentuado aumento nos casos de narcolepsia após a pandemia de 2009.

Tem que imunizar
Por ter sido associada ao maior risco de narcolepsia, a Pandemrix foi retirada do mercado. Entretanto, Steinman é rápido ao apontar que, mesmo com esse risco, era muito mais vantajoso tomá-la do que correr perigo de contrair a gripe suína. Apenas nos Estados Unidos, a pandemia de 2009 provocou 274.304 hospitalizações e 12.469 mortes. “Apesar de a imunização provocar alguns efeitos adversos raros em indivíduos geneticamente suscetíveis, não é prudente concluir que a vacinação contra influenza deve ser evitada, especialmente em grupos de risco médico. A proteína a partir da qual as vacinas são derivadas também está presente no vírus natural. Em indivíduos propensos à narcolepsia, a exposição à influenza pode potencialmente gerar anticorpos ainda mais fortes”, acredita o neurocientista.

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