Fiocruz: é real o risco de febre amarela urbana, especialmente no Rio

07/07/2017

O Globo

O recente surto de febre amarela silvestre no país levantou a preocupação sobre o possível surgimento de casos da doença em meio urbano, o que não se vê desde 1942. Para testar o quão grave poderia essa disseminação em cidades, pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) realizaram experimentos em laboratório que mensuram a capacidade de mosquitos transmitirem as diferentes linhagens do vírus da febre amarela no Rio de Janeiro, em Manaus e em Goiânia. Os resultados da pesquisa, publicados na revista internacional "Scientific Reports", mostram que a cidade do Rio é a que apresenta o maior potencial de surto, independentemente da linhagem viral considerada.

Nas três cidades, foram analisadas quatro espécies de mosquitos: Aedes aegypti (área urbana), Aedes albopictus (área periurbana), Haemagogus leocucelaenus (área silvestre) e Sabethes albipirvus (área silvestre). E foram estudadas duas linhagens do vírus da febre amarela: a sul-americana (subtipos 1D e 1E) e a da África ocidental.

Em Goiânia, tanto o Aedes aegypti quanto o Aedes albopictus se mostraram capazes de propagar ambas as linhagens, mas com pouca eficiência — foi, portanto, a cidade com menor potencial de surto entre as três. Já em Manaus, o A. aegypti foi suscetível a transmitir as duas linhagens, enquanto o A. albopictus foi capaz apenas de disseminar a linhagem sul-americana. Por fim, o Rio foi o lugar onde mais se detectou a transmissão das duas linhagens pelos dois mosquitos, mas, especialmente, pelo A. aegypti.

O estudo foi realizado em parceria com o Instituto Pasteur, na França, e com a colaboração do Instituto Evandro Chagas, no Pará.

— Atualmente, o Brasil enfrenta epidemia decorrente do ciclo de transmissão silvestre de febre amarela. No entanto, temos de estar vigilantes sobre o potencial de disseminação do vírus por espécies urbanas de mosquitos. Por isso, estudos como esse são fundamentais — afirma Ricardo Lourenço de Oliveira, chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC e um dos coordenadores da pesquisa. — Os dados indicam que, na hipótese de o vírus ser introduzido na área urbana do Rio de Janeiro por um viajante infectado, existem múltiplas oportunidades para o início da transmissão local.

Mosquitos dos gêneros Aedes, Haemagogus e Sabethes já são conhecidos há décadas pela ciência como vetores do vírus da febre amarela. No entanto, a eficiência de cada um para disseminar a doença varia de acordo com a diversidade de populações de insetos e da combinação entre os mosquitos e as diferentes linhagens virais. Por isso este tipo de análise local é realizada.

— De forma geral, verificamos que os A. aegypti e A. albopictus do Rio de Janeiro e de Manaus foram mais suscetíveis para transmitir os vírus da febre amarela, enquanto os insetos de Goiânia mostraram-se capazes de propagar a doença, mas com muito menos eficiência — comenta Oliveira.

Para prevenir que a doença extrapole o do meio rural para o urbano, o estudo destaca como essencial que as pessoas em contato com as áreas de mata onde há circulação da forma silvestre da febre amarela sejam imunizadas.

— Eliminar os criadouros e controlar a proliferação do Aedes aegypti é outra medida importante para evitar a reemergência da febre amarela urbana no Brasil — pontua a entomologista Dinair Couto Lima, pesquisadora do mesmo Laboratório e primeira autora do artigo.

ESCOLHA DOS LUGARES DE ESTUDO

A cidade de Manaus foi escolhida pelos pesquisadores por ser representativa da Amazônia, onde a forma silvestre da doença é endêmica, isto é, os casos são registrados lá de forma relativamente rotineira.

No Centro-Oeste, que registra surtos cíclicos de febre amarela silvestre e é apontado como área de transição entre a região endêmica e as áreas livres da doença no país, os mosquitos foram capturados em Goiânia.

Já no litoral do Sudeste, onde não houve notificação de casos por mais de 70 anos, até o surto iniciado no final de 2016, os pesquisadores escolheram o Rio de Janeiro para as coletas. Neste caso, além dos Aedes, foram avaliados mosquitos silvestres das espécies H. leucocelaenus e S. albiprivus.

A pesquisa analisou, ainda, insetos A. aegypti e A. albopictus coletados em Brazzaville, cidade do Congo onde a febre amarela silvestre é endêmica, mas causada por linhagens virais diferentes das detectadas no Brasil.

A capacidade de transmissão dos insetos foi medida pela presença de partículas virais infectantes — capazes de causar infecção — na saliva dos insetos após a ingestão do sangue com vírus. Quando testadas as linhagens virais brasileiras, o potencial para propagação da doença foi confirmado para todas as populações de mosquitos. Apenas os A. albopictus de Manaus não se mostraram capazes de transmitir a linhagem viral africana.

Além de confirmar o potencial de transmissão da febre amarela nas diferentes regiões, o estudo aponta que a eficiência para propagar o vírus varia entre as populações de mosquitos. Entre os vetores urbanos brasileiros, os A. aegypti do Rio de Janeiro apresentaram o maior potencial para disseminar o agravo, com mais de 10% dos mosquitos apresentando partículas virais infectantes na saliva 14 dias após a alimentação, independentemente da linhagem viral considerada.

E os mosquitos silvestres do Rio de Janeiro apresentaram capacidade ainda maior para disseminação da doença. Dependendo da linhagem do vírus considerada, 10% a 20% dos H. leucocelaenus apresentaram partículas infectantes na saliva 14 dias após a ingestão de sangue infectado. Já entre os S. albiprivus, esse percentual variou de 23% a 31%.

Níveis semelhantes de competência vetorial foram observados entre os mosquitos A. aegypti e A. albopictus de Brazzaville, no Congo, o que, segundo os cientistas, reforça o potencial para transmissão da febre amarela urbana na também na África ocidental.

O Globo - 07/07/2017

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